Quando todas as conversas acabam por voltar à mesma pessoa, geralmente está a acontecer algo mais profundo por baixo da superfície.
A maioria de nós conhece alguém que consegue transformar qualquer assunto numa história sobre a própria vida. Por vezes, até damos por nós a fazê-lo. Os psicólogos dizem que este padrão raramente é aleatório. A forma como uma pessoa fala de si, e o espaço que ocupa numa conversa, revela muitas vezes necessidades ocultas, medos e hábitos que moldam as suas relações.
Mais do que um simples hábito, segundo os psicólogos
Falar sobretudo sobre si próprio raramente aparece de um dia para o outro. Tende a formar-se como um estilo de comunicação que se mantém, por vezes durante anos. Muitas pessoas fazem-no sem se aperceber, enquanto quem as rodeia, em silêncio, se sente drenado ou posto de lado.
Os psicólogos apontam que as conversas funcionam como espelhos sociais. Mostram como nos vemos, como imaginamos que os outros nos veem e o que esperamos obter da interação. Quando alguém recentra constantemente a discussão nas suas experiências, ambições ou problemas, o padrão costuma refletir mais do que simples entusiasmo.
Quando alguém desvia sempre o tema para si, muitas vezes está a tentar regular emoções, e não apenas partilhar informação.
Algumas pessoas usam o discurso centrado no “eu” como escudo. Ao orientar a troca para terreno familiar, reduzem a incerteza. Em vez de enfrentar perguntas difíceis, críticas ou silêncio, inundam o espaço com detalhes sobre a própria vida. A conversa parece mais segura, porque controlam o guião.
Outras tratam as conversas como um palco. Recontam conquistas, falhanços e dramas como se estivessem a atuar. Pode soar a confiança, mas muitas vezes esconde uma autoimagem instável que precisa de reparação constante.
O que isto diz sobre a personalidade
A investigação em psicologia social mostra que a “alta autorreferência” na conversa - falar de si com muita frequência - está ligada a certos traços de personalidade e necessidades emocionais. Nem sempre significa narcisismo, mas envia sinais.
Uma procura constante de validação
Um fio condutor comum é a necessidade de reafirmação. Pessoas que falam muito sobre si tendem a procurar sinais subtis de aprovação: um aceno, uma gargalhada, um “uau”. Estas reações acalmam temporariamente dúvidas sobre o seu valor ou competência.
Falar centrado em si pode funcionar como um penso emocional rápido: acalma a insegurança por um momento, sem tratar a ferida de base.
Esta necessidade de validação pode surgir de várias formas:
- Histórias longas sobre conquistas passadas, repetidas para novos públicos.
- Relatos detalhados dos esforços do dia a dia, à procura de elogio ou simpatia.
- Comparações frequentes com os outros, enquadradas para parecer superior ou injustamente tratado.
Por baixo da superfície, muitas destas pessoas receiam não ser “suficientes” a menos que os outros confirmem constantemente o seu valor. O monólogo torna-se uma ferramenta para afastar esse medo.
Autocongratulação e frustração escondida
Outro motivo próximo é a autocongratulação. Quando alguém raramente recebe reconhecimento no trabalho, na família ou no círculo social, a amargura pode crescer. Falar de si num tom elogioso torna-se uma forma de restaurar estatuto.
Sublinham os seus sacrifícios, os seus sucessos, os obstáculos que superaram. Realçam pormenores que os apresentam como a pessoa responsável, a talentosa, a incompreendida. À superfície, soa a orgulho. Por dentro, muitas vezes reflete uma longa história de se sentirem ignorados ou subestimados.
Baixa empatia e traços narcísicos
Os psicólogos também notam que pessoas que dominam constantemente a conversa com as suas histórias mostram, muitas vezes, empatia reduzida. Têm dificuldade em permanecer com os sentimentos do outro. Assim que alguém partilha um problema, entram logo com uma experiência semelhante, desviando efetivamente o tema.
Isso nem sempre significa uma perturbação de personalidade narcísica completa. Ainda assim, o padrão partilha alguns traços com o narcisismo:
| Tendência | Como aparece na conversa |
|---|---|
| Necessidade de admiração | Gabarem-se com frequência, “pescar” elogios, realçar qualidades únicas. |
| Foco egocentrado | Interromper, ignorar sinais, trazer todos os assuntos de volta para si. |
| Empatia limitada | Minimizar os sentimentos dos outros, oferecer “a minha história” em vez de ouvir a sério. |
Com o tempo, este estilo corrói a confiança. Amigos sentem-se usados como plateia, não valorizados como iguais. Parceiros românticos relatam muitas vezes sentir solidão emocional, mesmo enquanto ouvem detalhes intermináveis sobre a vida da outra pessoa.
Causas psicológicas mais profundas
Por trás do comportamento visível, costumam coexistir várias dinâmicas mais profundas. Raramente são conscientes e muitas vezes começam cedo na vida.
Insegurança e medo de rejeição
Muitos faladores crónicos sobre si próprios carregam um forte medo de serem rejeitados ou abandonados. Ao controlar a conversa, tentam controlar a forma como os outros os veem. Mostrar a “melhor versão” de si, repetidamente, parece mais seguro do que deixar espaço para o silêncio ou para um questionamento genuíno.
Os psicólogos associam este padrão a questões de vinculação. Pessoas que cresceram em ambientes instáveis, ou que recebiam afeto apenas quando “performavam” ou impressionavam, podem ter aprendido que a atenção tem de ser constantemente conquistada. As conversas na idade adulta tornam-se arenas onde lutam para não perder o seu lugar.
Quando a atenção parece escassa ou frágil, algumas pessoas falam sem parar sobre si para evitar desaparecer da mente do outro.
Complexos de inferioridade e superioridade
Surge frequentemente outro paradoxo: quem parece mais seguro de si pode sentir-se profundamente inferior. Para compensar, constrói uma narrativa em que aparece sempre como mais forte, mais sábio ou mais refinado do que os outros.
Os psicólogos falam em “superioridade compensatória”. A pessoa insiste, em voz alta, na sua excelência porque, secretamente, duvida dela. O mesmo mecanismo também pode inverter-se: alguns adotam um papel permanente de vítima, repetindo as suas desgraças. Em ambos os casos, o foco mantém-se centrado no eu, deixando pouco oxigénio para a troca mútua.
O custo oculto para as relações
Quando uma pessoa fala consistentemente sobre si, as relações sofrem em silêncio. Amigos começam a evitar conversas longas. Colegas deixam de partilhar ideias porque esperam que sejam ofuscadas. Parceiros afastam-se emocionalmente.
A conversa transforma-se numa rua de sentido único. Há pouco diálogo real, poucas perguntas abertas, quase nenhuma curiosidade genuína. Com o tempo, esta dinâmica pode criar:
- Mal-entendidos, porque a pessoa centrada em si perde detalhes importantes sobre os outros.
- Ressentimento, à medida que os ouvintes se sentem invisíveis ou explorados.
- Fadiga social, pois as interações parecem mais trabalho do que ligação.
Muitas pessoas só se apercebem do problema quando alguém finalmente o assinala, ou quando as relações se quebram repetidamente sem explicação clara.
É possível mudar este padrão conversacional?
Os psicólogos dizem que a mudança se torna possível quando a pessoa reconhece o padrão e o liga a emoções mais profundas. Dizer a alguém simplesmente “fala menos sobre ti” raramente resulta. O comportamento protege-a da ansiedade, da vergonha ou da solidão. Retirá-lo sem alternativas pode ser sentido como ameaçador.
Em vez disso, o trabalho terapêutico centra-se muitas vezes em construir um sentido de eu mais estável, que não dependa totalmente da validação externa. À medida que a autoaceitação cresce, a urgência de preencher cada silêncio com histórias pessoais tende a abrandar.
Aprender a ouvir começa por se sentir seguro o suficiente para não estar no centro de todas as conversas.
A um nível prático, profissionais de saúde mental sugerem frequentemente exercícios pequenos e concretos:
- Contar quantas perguntas faz à outra pessoa numa conversa e tentar aumentar esse número.
- Fazer uma pausa de alguns segundos antes de responder, para resistir ao impulso automático de contar a sua própria história semelhante.
- Parafrasear o que a outra pessoa disse antes de falar de si, para mostrar que a ouviu de facto.
Como reagir quando alguém só fala de si
Para quem está do outro lado, a situação pode ser exaustiva. Definir limites não exige agressividade. Normalmente assenta na clareza e na consistência.
Algumas estratégias usadas por terapeutas e coaches de comunicação incluem:
- Redirecionar com delicadeza: “Percebo que isto te fez lembrar a tua experiência, mas eu gostava de terminar o que estava a dizer.”
- Limitar o tempo: decidir antecipadamente quanto tempo mantém contacto com pessoas que nunca retribuem.
- Escolher o contexto: preferir situações de grupo, onde é mais difícil para uma pessoa monopolizar a troca.
Estas abordagens não visam punir a pessoa centrada em si, mas preservar a sua própria energia e sinalizar que a conversa deve fluir nos dois sentidos.
Noções relacionadas que ajudam a compreender o comportamento
Esta tendência liga-se a vários conceitos psicológicos mais amplos que muitas vezes ficam em segundo plano no quotidiano. Um deles é o “narcisismo conversacional”, termo cunhado pelo sociólogo Charles Derber. Descreve o hábito automático de deslocar o foco para si, mesmo sem intenção maliciosa. Reconhecer esta dinâmica pode ajudar as pessoas a darem por si mais cedo e a escolherem uma resposta diferente.
Outro conceito útil é a “precisão empática” - a capacidade de inferir corretamente o que outra pessoa pensa ou sente. Pessoas que falam constantemente sobre si tendem a pontuar mais baixo nesta competência, não por falta de inteligência, mas porque a sua atenção raramente sai do seu mundo interno. Exercícios que reforçam a tomada de perspetiva, como tentar recontar uma história do ponto de vista da outra pessoa, podem reequilibrar gradualmente as conversas e reduzir a necessidade de permanecer sob os holofotes.
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