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Escrever passwords em papel pode ser mais seguro do que muitos imaginam.

Duas pessoas sentadas numa mesa de café, uma escreve num papel, com uma carteira e chávena de café ao lado.

O homem no café olhou em volta uma vez e depois fez algo que quase já não se vê.

Tirou do bolso um pequeno caderno gasto, abriu-o com cuidado e começou a copiar uma nova palavra-passe à mão. Nada de gestor de palavras-passe. Nada de preenchimento automático. Apenas caneta, papel e uma confiança silenciosa.

Observei-o por um momento. Os movimentos eram lentos, como um ritual repetido cem vezes. Sublinhou uma palavra duas vezes, fez uma pausa, depois riscou-a e voltou a escrevê-la em letras mais pequenas. O caderno regressou a um bolso interior, encostado ao peito como um passaporte.

No ecrã do portátil, vislumbrei uma página de banco. Muito em jogo. Muito risco. E, ainda assim, ele parecia estranhamente calmo, quase descontraído.

Pareceu antiquado. Também pareceu… estranhamente inteligente.

Porque é que “palavras-passe em papel” não são tão loucas como parecem

A maioria das pessoas imagina hackers como figuras sombrias de capuz, a teclar furiosamente no escuro. Por isso tememos o ataque digital, a intrusão invisível. Mas, na vida real, muitas fugas de dados começam em algo muito menos cinematográfico: uma palavra-passe reutilizada, um erro de sincronização na cloud, um e-mail de phishing aberto numa segunda-feira à noite, já cansado.

Nesse contexto, uma palavra-passe escrita em papel começa a parecer menos ridícula. Está offline. Não sincroniza. Não fica guardada numa base de dados gigante à espera de ser roubada em massa. Para obter essa palavra-passe, alguém tem de estar perto de si. Fisicamente perto. Só isso já muda as regras do jogo.

Pense assim: ninguém consegue fazer força bruta a um caderno na gaveta da sua cozinha a partir do outro lado do mundo.

Há alguns anos, um grande gestor de palavras-passe revelou uma violação de segurança que manteve especialistas a falar durante semanas. Não, os atacantes não capturaram instantaneamente os logins de toda a gente. Mas dados sobre cofres foram expostos, as pessoas entraram em pânico e milhares perguntaram-se se tinham de mudar tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, um relatório de cibersegurança do National Cyber Security Centre do Reino Unido destacou algo discretamente revelador: as palavras-passe mais comuns continuavam a ser “123456”, “qwerty” e nomes de pessoas. Nada de ciberespionagem sofisticada. Apenas atalhos humanos, nascidos do medo de esquecer.

Agora imagine um casal reformado com um pequeno caderno de espiral trancado numa caixa metálica em casa. Cada serviço tem uma palavra-passe diferente e longa. O caderno nunca sai de casa. Não há sincronização, nem cloud, nem preenchimento automático. Do ponto de vista puramente prático, o perfil de risco deles não é o mesmo de alguém que reutiliza “Summer2024!” em todas as apps.

Quando especialistas dizem “não escreva palavras-passe”, muitas vezes estão a combater uma batalha antiga. O pesadelo clássico era um post-it colado ao monitor num escritório em open space ou uma lista de palavras-passe colada por baixo do teclado. Espaços partilhados. Risco partilhado.

No entanto, os ataques modernos raramente começam com alguém a esgueirar-se debaixo da sua secretária. Começam com credential stuffing em massa: milhões de palavras-passe roubadas testadas em grandes sites. Ou e-mails de phishing com páginas falsas de login. É industrial, automatizado e indiferente a quem você é.

Uma palavra-passe em papel contorna tudo isso. Nenhuma fuga de dados vai “varrer” o seu caderno. Nenhum script vai interpretar a sua caligrafia. A ameaça real é alguém na sua vida: um colega de casa curioso, um parceiro em quem já não confia, um ladrão que sabe o que procurar. Um risco muito diferente, uma defesa muito diferente.

Como usar palavras-passe em papel sem se sabotar

Se vai optar pelo low-tech, vá até ao fim. Isso significa um caderno dedicado, não pedaços de papel espalhados pela secretária como uma tempestade de segredos. Escolha algo pequeno, resistente e com aspeto aborrecido. Este não é o lugar para uma capa brilhante a dizer “Os Meus Segredos”.

Crie uma estrutura simples: uma página por serviço, ou um índice alfabético. Escreva o nome do site, o nome de utilizador e depois a palavra-passe. Use uma caneta que não borre. Mantenha a caligrafia suficientemente legível para si, mas não tão “certinha” que um olhar rápido do outro lado da sala revele tudo de uma vez.

Depois trate esse caderno como uma chave de casa, não como uma lista de compras descartável. Um objeto. Um lugar. Um hábito.

A parte mais difícil não é o caderno. É você. Vai sentir-se tentado a “simplificar” as palavras-passe para não ter de as consultar sempre. Vai dizer a si mesmo que as copia mais tarde, e depois esquecer. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias.

Dê a si mesmo permissão para depender do caderno. Use palavras-passe mais longas e únicas que não tenta memorizar. Quando mudar uma palavra-passe, mude-a primeiro no caderno e depois no site. Se estiver cansado ou com pressa, pare em vez de inventar um atalho de que se arrependerá daqui a seis meses.

E cuidado com as armadilhas clássicas: deixar o caderno ao lado do portátil, levá-lo para o trabalho e esquecê-lo na secretária, ou tirar fotos “para backup” que acabam numa pasta na cloud que nunca verifica.

Alguns profissionais de segurança admitem, discretamente, que o papel ganha por larga margem a “uma palavra-passe fraca para tudo”. Um deles disse-me ao café:

“Se alguém insiste em escrever palavras-passe, prefiro que o faça e use palavras-passe fortes e únicas do que fingir que tem memória perfeita e acabar hacked.”

Essa perspetiva ajuda. Não é perfeição. É redução de danos. Menos risco, menos vitórias fáceis para atacantes.

Eis uma forma simples de pensar num sistema de papel seguro:

  • Mantenha apenas um caderno, escondido num local consistente e privado em casa.
  • Use palavras-passe longas e únicas ou frases-passe que não tenta memorizar.
  • Nunca guarde códigos bancários e PINs de desbloqueio de dispositivos na mesma página.
  • Não fotografe nem digitalize o caderno “por conveniência”.
  • Diga a uma pessoa de confiança onde está, para o caso de emergência.

Nenhum sistema é à prova de bala. Mas este obriga um atacante a trabalhar mais, online e offline. Isso já o coloca à frente de uma grande fatia da internet.

Repensar o que “seguro” sente

Há um alívio silencioso que vem de externalizar a memória. A ansiedade do “e se eu me esqueço desta palavra-passe crucial?” suaviza quando sabemos que ela vive algures que podemos tocar. Para pessoas que não confiam em apps, ou que acham gestores de palavras-passe confusos, o papel pode ser o único método a que realmente aderem.

E a consistência vence a teoria, sempre.

Quando deixa de ver o caderno como uma relíquia embaraçosa e passa a tratá-lo como uma ferramenta, toda a sua postura muda. Fica menos tentado a reutilizar logins. Mais disponível para criar palavras-passe longas e feias. Mais provável que ajude um familiar mais velho ou um amigo menos tecnológico a fazer algo realista, em vez de perseguir uma configuração “perfeita” que vão abandonar para a semana.

Falamos muitas vezes de cibersegurança como se fosse um problema puramente de software. Firewalls, VPNs, arquitetura zero trust. Mas muito disso é emocional: medo de esquecer, vergonha por não ser “bom com tecnologia”, pânico no meio de um ciclo de reposição de palavra-passe.

O papel entra nesse espaço em silêncio. Não o julga. Não força atualizações. Não o bloqueia porque mudou de telemóvel. Ao contrário de muitas ferramentas, adapta-se à forma como o seu cérebro já funciona, em vez de o empurrar para mais uma interface.

Pode descobrir, se experimentar, que o ato de escrever uma palavra-passe abranda o suficiente para pensar: “Preciso mesmo desta conta?” ou “Vou usar a mesma palavra-passe outra vez?” Essa pequena pausa é onde nascem muitas boas decisões.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Offline vence ataques em massa As palavras-passe em papel não ficam expostas a fugas online nem a ferramentas automatizadas de hacking. Reduz o risco de ser apanhado em fugas de dados em grande escala.
Palavras-passe mais fortes e únicas Escrevê-las liberta-o de ter de memorizar combinações complexas. Torna realista deixar de reutilizar a mesma palavra-passe em todo o lado.
Sistema simples e “amigo” das pessoas Um caderno discreto, um local de arrumação, regras claras de uso. Fácil de adotar, mesmo para quem não é técnico, e mais fácil de manter ao longo do tempo.

FAQ

  • Escrever palavras-passe em papel não é sempre inseguro? Não necessariamente. Pode ser bastante seguro se o caderno estiver guardado de forma privada em casa, não for transportado e ficar longe de olhares curiosos.
  • E se alguém entrar em minha casa e encontrar o meu caderno? É um risco, mas continua a ser um risco físico e direcionado. Manter o caderno escondido, separado de objetos obviamente valiosos, reduz bastante essa possibilidade.
  • Devo misturar palavras-passe em papel com um gestor de palavras-passe? Pode. Algumas pessoas guardam a maioria dos logins num gestor e reservam o papel para códigos de backup, banca ou contas que consideram ultra-sensíveis.
  • Posso escrever palavras-passe num diário ou agenda normal? É melhor usar um caderno dedicado, com aspeto aborrecido. Diários e agendas têm mais probabilidade de serem abertos por visitantes curiosos ou familiares.
  • Quão longas devem ser as palavras-passe se as estou a escrever? Tão longas quanto quiser. Frases-passe longas feitas de palavras aleatórias são ideais, sobretudo quando não precisa de as memorizar na perfeição.

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