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Conforto em primeiro lugar: costura, tricô e bordado sem fadiga.

Mulher a costurar numa máquina com luz de mesa, rodeada de linhas e chá, numa sala iluminada pelo sol.

A sala está silenciosa, exceto pelo tiquetaque suave das agulhas e o zumbido baixo de uma máquina de costura.

Uma mulher na casa dos quarenta inclina-se para a frente, semicerrando os olhos para uma linha de minúsculos pontos atrás, com os ombros quase a tocar nas orelhas. O telemóvel ilumina-se com uma mensagem, mas ela ignora-a. O bastidor de bordar tem toda a sua atenção - e, lentamente, também o seu pescoço. Vinte minutos depois, endireita-se com uma careta, esfregando o mesmo sítio que se queixa sempre. Olha para o trabalho com orgulho, depois espreita o relógio e suspira. O hobby começa a parecer um trabalho de secretária.

Ela não está sozinha. Em salas de estar, comboios, salas de espera e mesas de cozinha, há pessoas a tricotar, a coser, a bordar… e a sofrer em silêncio. Os dedos formiguejam, os pulsos ardem, a zona lombar dói. O trabalho é lindo; o corpo já nem por isso.

Algures entre a alegria de criar e o preço que os nossos músculos pagam, falta uma peça do molde.

Porque é que pontos bonitos tantas vezes têm um preço doloroso

Veja um grupo de tricotadores num café e vai observar a mesma coreografia: costas curvadas sobre o fio, cotovelos demasiado encostados ao tronco, cabeça inclinada para baixo como se os pontos pudessem fugir. O ritmo é calmante, quase meditativo - até reparar em alguém a esticar o pulso com uma careta.

A maioria das pessoas aprendeu trabalhos de agulhas com um pai, uma avó, um amigo. Herdaram os movimentos, não a ergonomia. Ninguém falava de alinhamento dos ombros ou de pulsos neutros quando estava a tentar dominar o primeiro cachecol. O foco era não deixar cair pontos, não era o que a coluna sentia após a carreira 200. O conforto era tratado como um extra simpático. Não como o tecido-base.

Pergunte em qualquer grupo de artesanato e surgem as mesmas histórias: “As minhas mãos ficam dormentes ao fim de dez minutos.” “Adoro patchwork, mas o pescoço está a matar-me.” Um inquérito de 2022 a artesãos domésticos no Reino Unido concluiu que mais de 70% reportavam dor regular associada ao hobby, sobretudo no pescoço, ombros e pulsos. Muitos encurtam as sessões em silêncio, ou param durante semanas quando há uma crise.

Uma professora reformada descreveu como costumava bordar até tarde no sofá. A televisão ficava ligada ao fundo, as costas torcidas na direcção do ecrã, enquanto as mãos perseguiam pontos minúsculos sob uma luz fraca. “Achava que a dor no pescoço era a idade”, disse. “Afinal era só mobiliário mau e postura ainda pior.” Não deixou de bordar. Mudou a forma como se sentava. A dor aliviou. A alegria voltou.

O corpo não odeia trabalhos de agulhas. Odeia repetição em posições desconfortáveis. Movimentos pequenos e precisos exigem atenção dos mesmos músculos e tendões, vez após vez. Quando os ombros estão arredondados, o pescoço flectido e os pulsos em ângulos acentuados, esses tecidos já estão sob carga antes mesmo de acontecer o primeiro ponto. Acrescente uma hora de trabalho concentrado e a tensão multiplica-se.

Ergonomia é, simplesmente, a arte de fazer com que a sua configuração se adapte ao seu corpo, em vez de obrigar o corpo a adaptar-se. Na costura, pode significar elevar a cadeira para que as ancas fiquem ligeiramente acima dos joelhos. No tricô, significa deixar o trabalho repousar no colo em vez de o segurar suspenso no ar. No bordado, pode ser algo tão pequeno como inclinar o bastidor para não ter de esticar o pescoço. O conforto não é uma actualização de luxo. É a única forma de continuar a criar durante anos sem, silenciosamente, desgastar as mãos.

Criar um espaço de artesanato onde o corpo consegue respirar

Comece pelo local onde se senta. A sua cadeira e a sua mesa são a “máquina” à qual o corpo fica aparafusado - mesmo que sejam apenas um sofá e uma mesa de centro. Procure um assento onde os pés fiquem assentes no chão, as ancas ligeiramente abertas e as costas possam apoiar-se em algo, em vez de ficarem no ar. Muitas vezes, uma cadeira de jantar com uma almofada na zona lombar é melhor do que um sofá mole e abatido que engole a postura por completo.

Depois, observe a altura. As mãos devem trabalhar aproximadamente entre a altura do umbigo e das costelas inferiores. Se os ombros sobem em direcção às orelhas quando cose, a mesa está demasiado alta. Se se dobra ao meio para ver os pontos, está demasiado baixa. Uma pilha de livros firmes debaixo da máquina de costura, ou um apoio para os pés, pode colocar tudo num ângulo mais amigável sem ter de comprar mobiliário novo. Pequenos ajustes. Grande alívio.

A iluminação é a heroína discreta. Má luz faz com que se incline; boa luz permite manter-se mais afastado. Um candeeiro ajustável colocado do lado oposto à mão dominante reduz sombras e esforço. Muitos bordadores juram por lâmpadas de “luz do dia”, que aumentam o contraste sem o brilho agressivo de um foco. Num comboio ou no sofá, até uma luz de encaixe pode transformar a forma como o pescoço se comporta.

Depois há a questão do apoio. No tricô ou no crochet, deixe o projecto repousar no colo ou numa almofada. No bordado, um suporte ou armação liberta uma mão e impede que segure o bastidor com uma força exagerada. Na costura à mão, apoiar os cotovelos nos braços da cadeira ou em toalhas enroladas estabiliza o trabalho e poupa os ombros. Parece simples demais. É esse o objectivo.

As pausas são o conselho aborrecido que ninguém segue a sério. Definir um temporizador de 25 minutos e alongar suavemente durante 3 minutos soa ideal na teoria. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, o seu corpo adora até interrupções minúsculas. Desvie o olhar do trabalho a cada duas carreiras. Descontraia a mandíbula. Faça círculos lentos com os ombros. Levante-se entre repetições do padrão para ir buscar um copo de água ou tirar uma fotografia do progresso.

Pense numa sessão de artesanato como um treino por intervalos: rajadas curtas de pontos concentrados, pequenos momentos de movimento pelo meio. Em vez de esperar até a mão “gritar”, ouça o primeiro sussurro de rigidez. Esse é o momento de mudar de posição, rodar os pulsos suavemente, ou alternar tarefas - alfinetar em vez de coser, ler o gráfico em vez de tricotar. O objectivo não é disciplina; é sustentabilidade.

“Quase deixei de tricotar aos 35 por causa de dores no pulso”, diz Marta, engenheira de software que agora ensina técnicas ergonómicas na sua loja local de lã. “Achava que tinha de aguentar. Depois alguém me mostrou como segurar as agulhas com menos tensão e fazer micro-pausas. Mesmos projectos, mesma lã. Corpo totalmente diferente.”

Alguns hábitos pioram tudo em silêncio: apertar as ferramentas com força excessiva, suster a respiração em partes difíceis, sentar-se na beira da cadeira em vez de usar o encosto. Num dia mau, os três combinam-se numa tempestade perfeita de tensão que aparece como dor horas mais tarde.

Aqui fica uma lista rápida de conforto para espreitar antes de começar o próximo projecto:

  • Os meus ombros estão relaxados e afastados das orelhas?
  • Os meus pés tocam no chão ou num apoio sólido?
  • O meu trabalho está apoiado em algo, em vez de ficar suspenso no ar?
  • Tenho luz suficiente para ver os detalhes sem me inclinar?
  • Mexi-me, mesmo que por pouco tempo, nos últimos 20–30 minutos?

Construir uma relação com o hobby que o seu corpo consiga manter

Tendemos a falar dos trabalhos de agulhas como um passatempo intemporal e suave - tardes calmas e chávenas de chá. A realidade é mais dura: projectos longos, prazos nocturnos para prendas, “só mais uma carreira” à 1 da manhã. O corpo não quer saber se está numa máquina industrial ou dobrado sobre um ponto cruz no sofá. Esforço é esforço. A diferença é que em casa ninguém faz uma verificação de segurança por si.

A nível humano, é isso que torna o pensamento ergonómico quase radical. Está a dizer: o meu conforto importa tanto como a colcha acabada. Essa camisola não vale danos nervosos. Esse caminho de mesa de família não deveria custar seis meses de fisioterapia ao ombro. Esta é a fronteira silenciosa onde um hobby se mantém uma alegria, em vez de escorregar para uma lesão em câmara lenta.

A ergonomia “conforto em primeiro lugar” não é uma configuração única. É uma conversa com o corpo que continua a desenrolar-se. À medida que as estações mudam, as cadeiras se alteram, o humor oscila, vai reparar em coisas diferentes: mãos de inverno que precisam de fio mais quente e alongamentos mais frequentes; noites de verão que convidam a trabalhar ao ar livre, mas em cadeiras de jardim instáveis. Há dias em que consegue tricotar uma hora sem problema; noutros, 15 minutos chegam.

Num dia de dor, permitir-se mudar para planear padrões, organizar tecidos ou ver tutoriais não é “batota”. É uma forma de continuar dentro do seu mundo criativo sem moer as mesmas articulações sobrecarregadas. Os criadores mais experientes são muitas vezes os que aprenderam a parar cedo, não os que se forçaram mais.

A mudança mais profunda é mental: passar de “tenho de acabar isto” para “quero conseguir continuar a fazer isto daqui a anos”. Isso muda as escolhas: ferramentas mais leves, pegadas mais soltas, sessões mais curtas, pontos mais lentos. Pode significar dizer não a uma encomenda apressada ou repensar como passa uma tarde de domingo. A nível social, falar disto abertamente pode ser desconcertante. A nível físico, é uma revolução silenciosa.

Em termos práticos, partilhar estratégias de conforto em grupos de artesanato pode ser poderoso. Uma pessoa leva uma almofada lombar para a noite do tricô, outra começa a usar um suporte para o bastidor, outra demonstra alongamentos suaves para as mãos que aprendeu com um fisioterapeuta. Pequenas experiências imperfeitas tornam-se um novo normal. Num nível mais profundo, é também uma forma de dizer: preocupamo-nos não só com os projectos uns dos outros, mas com os corpos uns dos outros.

Todos já tivemos aquele momento em que levantamos os olhos do trabalho, percebemos que a perna está dormente, o chá está frio e duas horas desapareceram. Esse transe faz parte da magia. Também é por isso que a ergonomia nos trabalhos de agulhas parece menos um conjunto de regras e mais um artesanato em si - moldar um espaço onde os seus pontos e a sua coluna possam prosperar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Postura de base Pés estáveis, costas apoiadas, mãos a uma altura confortável Reduz dores no pescoço, ombros e zona lombar durante o trabalho
Luz e apoio Iluminação orientada, projecto apoiado pelos joelhos, almofadas ou suportes Limita a fadiga visual e a tensão muscular associada à “postura curvada”
Micro-pausas Interrupções curtas para mexer, alongar, mudar de tarefa Protege as mãos e os pulsos a longo prazo sem sacrificar o prazer de criar

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Quanto tempo posso tricotar, coser ou bordar sem arriscar uma lesão? Não há um número mágico, mas muitos terapeutas sugerem pausas a cada 25–30 minutos. Esteja atento ao primeiro sinal de rigidez ou formigueiro, não à dor intensa. Esse é o seu sinal para parar, mexer-se ou mudar de posição.
  • Agulhas, bastidores ou cadeiras ergonómicas valem mesmo o dinheiro? Podem ajudar, mas não são uma solução milagrosa. Muitas vezes, ajustar a altura, a iluminação e a postura traz mais alívio do que comprar equipamento novo. Se investir, comece pelo que mais o incomoda: cadeira para dor nas costas, suporte de bastidor para esforço nas mãos, etc.
  • As minhas mãos já doem: devo parar completamente de fazer trabalhos manuais? Fale com um profissional de saúde se a dor for forte ou persistente. Muitas pessoas conseguem continuar ao reduzir a duração das sessões, mudar técnicas e acrescentar alongamentos. O objectivo é adaptar a prática, não apagá-la.
  • Existe uma forma “certa” de segurar agulhas ou um bastidor? Há posições que sobrecarregam menos as articulações: pulsos neutros, dedos relaxados, trabalho apoiado em vez de suspenso. Dentro disso, cada corpo é diferente. Experimente com suavidade até encontrar uma pega que seja fácil e não o deixe dorido mais tarde.
  • Alongamentos simples fazem mesmo diferença? Sim. Rotações suaves dos pulsos, abrir e fechar os dedos, rolar os ombros e alongar o pescoço quebram o ciclo de tensão. Demoram menos de dois minutos e, ao longo de semanas, muitas vezes contam mais do que uma cadeira ou um candeeiro perfeitos.

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