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Caça a tempestades do espaço: astronauta captura imagem rara de fenómeno acima de uma trovoada. Veja a foto tirada da ISS!

Astronauta tira foto da Terra através de janela na estação espacial, com atmosfera e céu azul visíveis.

Uma auréola vermelha frágil, fina como fumo e desaparecida em menos de um piscar de olhos, iluminou o espaço mesmo acima das nuvens. Um astronauta na Estação Espacial Internacional estava pronto - câmara encostada à janela, definições já ajustadas. O resultado: uma imagem rara e extremamente nítida de um fenómeno de relâmpago no espaço que a maioria de nós nunca verá a olho nu.

Aqui em baixo, as tempestades significam cabelo molhado, cortes de eletricidade e alertas meteorológicos no telemóvel. Lá em cima, transformam-se em teias cintilantes de luz, ramificando-se não em direção ao solo, mas em direção ao próprio espaço. A nova foto parece quase falsa, como arte conceptual de um filme de ficção científica.

E, no entanto, é real.

Caça a tempestades em órbita: quando astronautas se tornam fotógrafos do céu

A cena desenrola-se 400 quilómetros acima da Terra, com a ISS a deslizar em silêncio sobre o lado noturno do planeta. Lá em baixo, nuvens de trovoada em forma de bigorna espalham-se como uma explosão congelada. Os relâmpagos tremeluzem no interior, brilhantes o suficiente para talhar veias prateadas no topo das nuvens. Depois, mesmo acima da tempestade, algo invulgar floresce: uma explosão vermelha, em forma de medusa, estendendo-se dezenas de quilómetros para cima.

O astronauta junto à janela apanha-a num instante. O obturador da câmara dispara, a luz desvanece-se, e a estação continua a deslizar para a escuridão. Mais tarde, quando a imagem aparece online, as pessoas fazem zoom, recortam, realçam, debatem. A fotografia mostra não apenas uma tempestade, mas um raro “evento luminoso transitório” - um clarão tipo sprite suspenso entre a nuvem de trovoada e o espaço, pairando no ar rarefeito onde o nosso céu começa a ceder lugar ao vácuo.

O que torna esta imagem especial é o ângulo. A partir do solo, estes fenómenos são difíceis de ver, bloqueados por nuvens e pela poluição luminosa. Do espaço, a tempestade torna-se uma ilha luminosa num oceano negro, e a aparição vermelha arqueia-se acima dela como uma coroa fantasmagórica. A órbita da ISS transformou o astronauta num caçador de tempestades com uma vista que nenhum piloto de jato consegue igualar. Quase se sente a rapidez com que tudo aconteceu - e quão estreita era a janela para o captar.

Cientistas da NASA e entusiastas de meteorologia reconheceram de imediato o que estavam a ver. O brilho vermelho fino, os ténues filamentos verticais que se estendem para cima e para baixo, o momento certo acima de uma trovoada poderosa - tudo pistas que apontam para um tipo exótico de relâmpago em grande altitude. Estes clarões têm nomes que soam a personagens de banda desenhada: sprites, elves, blue jets, gigantic jets. Durante décadas, pilotos contaram histórias de luzes estranhas por cima das tempestades e foram educadamente ignorados. Só nos anos 1990 é que as câmaras as registaram de forma conclusiva a partir do solo.

A partir da órbita, porém, o jogo muda. A ISS dá cerca de 16 voltas à Terra por dia, passando constantemente sobre tempestades noturnas nos trópicos e nas latitudes médias. Cada órbita dá aos astronautas algumas oportunidades fugazes para apanhar um destes eventos luminosos. A nova imagem acrescenta um ponto de dados inestimável: posição exata, hora, brilho, até a forma delicada do clarão. Para os investigadores, isso vale ouro. Para o resto de nós, é um lembrete de que até as trovoadas “normais” no radar meteorológico escondem fogo-de-artifício à escala do espaço que quase nunca vemos.

Como se “fotografa” relâmpagos a partir do espaço?

Captar um evento luminoso transitório a partir da ISS não é apenas um clique de sorte. Os astronautas são informados sobre onde sistemas de tempestade fortes estão a desenvolver-se ao longo da sua trajetória orbital. Muitas vezes preparam uma câmara com uma objetiva luminosa, ISO elevado e tempos de exposição curtos, e depois posicionam-se junto a uma janela da cúpula quando a estação entra na noite. Nesses minutos, entram num estado de alerta quase meditativo - a olhar para a escuridão, à espera do próximo lampejo lá em baixo.

A bordo, algumas câmaras funcionam em modo de rajada, captando fotogramas em rápida sucessão sobre a mesma zona de nuvens. Mais tarde, cientistas vasculham milhares de imagens à procura das estruturas vermelhas, azuis ou roxas características acima do topo das tempestades. É parte arte, parte recolha de dados. O astronauta que fez esta última imagem terá provavelmente tido apenas uma fração de segundo para reagir, enquadrar e disparar. Isto é caçar tempestades à velocidade orbital.

Do solo, também temos as nossas opções, mesmo que a vista não seja tão limpa. Fotógrafos amadores montam-se em cristas de montanhas ou falésias costeiras, apontando as câmaras para bigornas de tempestades distantes e disparando sequências longas, na esperança de que um sprite apareça acima das nuvens. Numa noite muito limpa, longe das luzes da cidade, uma tempestade forte a 200 ou 300 quilómetros pode revelar um ténue clarão vermelho por cima. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. É um hobby obsessivo, daqueles que consomem fins de semana e enchem discos rígidos com fotogramas negros e um ou dois milagres.

Os cientistas, porém, têm um motivo maior. Esse raro registo da ISS alimenta modelos complexos de como as tempestades injetam energia na alta atmosfera. Quando os relâmpagos descarregam dentro de uma tempestade, reorganizam campos elétricos que podem estender-se até à ionosfera, quase 100 quilómetros acima. Nas condições certas, essa energia desencadeia sprites ou elves - clarões ultra-breves que se espalham horizontalmente como panquecas luminosas ou sobem como filamentos vermelhos.

Isto não é apenas ciência de “imagens bonitas”. Eventos elétricos em grande altitude alteram a química da alta atmosfera, ajustando níveis de óxidos de azoto e outros gases reativos. Ao longo de milhares de tempestades, essas pequenas mudanças acumulam-se. A ISS funciona como um observatório móvel, dando aos cientistas um lugar na varanda rotativa sobre as máquinas meteorológicas mais violentas do planeta. Cada nova fotografia ajuda-os a refinar como as trovoadas “respiram”, se carregam e descarregam - para cima, e não apenas para baixo.

Porque estes clarões raros importam - e como mudam a forma como vemos as tempestades

Se quiser sentir-se mais próximo do que aquele astronauta viu, há um método surpreendentemente simples. Da próxima vez que uma tempestade forte aparecer na sua app do tempo, não se limite a seguir a mancha do radar. Abra uma vista de satélite e observe o topo das nuvens a expandir-se e a arrefecer. Depois, se puder, saia da cidade e olhe para longe na direção da tempestade, não para a chuva em si. Não está a caçar descargas que atingem o solo. Está a olhar ligeiramente acima da tempestade, para a faixa ténue do céu onde o espaço parece um pouco mais próximo.

Em algumas noites, as câmaras vêem mais do que você. Um DSLR básico ou uma mirrorless num tripé, objetiva em grande angular, ISO alto, exposição curta e repetida - é assim que muitos caçadores de sprites trabalham. Disparam centenas de fotogramas numa hora e depois percorrem-nos mais tarde. É aborrecido e, 99% das vezes, não acontece nada. Até que um dia, um único fotograma mostra uma árvore carmesim ténue a subir de uma tempestade a 300 quilómetros de distância. De repente, aquele pequeno pixel luminoso na foto da ISS parece muito mais real.

Todos conhecemos aquele momento em que o trovão ribomba um pouco perto demais e a sala fica em silêncio. Estes clarões nascidos no alto da atmosfera tocam na mesma sensação visceral, apenas esticada à escala planetária. As trovoadas deixam de ser apenas meteorologia local e tornam-se mecanismos ligados à orla do espaço - a sinais de rádio, ao arrasto em satélites, até ao brilho ténue do céu noturno. Muita gente imagina a atmosfera como um cobertor plano. Os relâmpagos em grande altitude mostram-na mais como uma escadaria em camadas, viva, com as tempestades a transportarem energia do degrau mais baixo quase até ao último antes da órbita.

“Daqui de cima, o relâmpago não se limita a atingir o chão”, escreveu um antigo astronauta da ISS. “Vê-se a estender-se em todas as direções, lateralmente dentro das nuvens e, por vezes, diretamente na nossa direção.”

Essa parte do “diretamente na nossa direção” é de onde vêm as imagens mais raras. Os gigantic jets - enormes descargas que saltam do topo das tempestades diretamente para a ionosfera - são alguns dos eventos elétricos mais dramáticos da Terra. Só foram fotografados de forma adequada nas últimas duas décadas, e as imagens a partir do espaço continuam escassas. Por isso, quando um membro da tripulação da ISS apanha mesmo um jato parcial ou um conjunto claro de sprites, os investigadores partilham o ficheiro como se fosse um tesouro.

  • Sprites e elves surgem acima do topo das tempestades, não dentro do núcleo de precipitação, o que os torna quase impossíveis de notar durante o mau tempo do dia a dia.
  • A ISS orbita rápido o suficiente para ver centenas de tempestades por dia, mas imagens limpas e nítidas destes fenómenos continuam a ser extremamente raras.
  • Estes clarões brilhantes e belos ajudam os cientistas a compreender como as trovoadas ligam a baixa atmosfera ao limiar do espaço.

O que esta foto da ISS diz, discretamente, sobre o nosso planeta

A nova imagem já está a circular a grande velocidade nas redes sociais, enquadrada por legendas dramáticas sobre “relâmpagos espaciais” e “luzes alienígenas”. Por baixo do embrulho viral, porém, há algo mais íntimo a acontecer: é um retrato de casa, apanhado a meio de um piscar. Vê-se a curvatura da Terra, a linha azul fina da atmosfera, a trovoada a ferver em branco e o clarão vermelho por cima - tudo num só fotograma. É como se alguém tivesse puxado a cortina de uma cena familiar e mostrado a maquinaria escondida por trás.

Aqui em baixo, as tempestades são pessoais. Cancelam voos, inundam caves, estragam churrascos. Lá de cima, parecem células pulsantes num organismo maior, cada clarão um batimento a enviar ondulações pelo céu. Aquele único sprite ou elf acima da nuvem não é apenas uma curiosidade; é um sinal visível de que a eletricidade está a fluir por camadas da atmosfera em que quase nunca pensamos no quotidiano. A câmara do astronauta transformou essa cablagem invisível numa história que conseguimos realmente ver.

Há também um conforto estranho em saber que o nosso tempo continua a ser capaz de surpreender quem o orbita todos os dias. Os astronautas são treinados, informados, inundados de dados. No entanto, o tom das suas vozes quando descrevem estes eventos costuma regressar a um assombro de infância. A nova foto encaixa nessa tradição. Convida-o a olhar de outra forma para a próxima tempestade no seu horizonte e a perguntar-se o que poderá estar a acontecer em silêncio, muito acima das nuvens - onde os seus olhos não chegam, mas a ISS passa, observando.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Vista única a partir da ISS A estação sobrevoa tempestades a 400 km de altitude, revelando relâmpagos que sobem em direção ao espaço. Compreender o que os astronautas veem para lá das imagens meteorológicas clássicas.
Fenómenos luminosos raros Sprites, elves e jatos gigantes aparecem por apenas alguns milissegundos acima das nuvens. Descobrir um “segundo andar” escondido nas tempestades que julgamos conhecer bem.
Ciência e emoção misturadas Cada fotografia alimenta a investigação atmosférica, ao mesmo tempo que conta uma história humana. Sentir a ligação entre o nosso quotidiano e a alta atmosfera que nos rodeia.

FAQ:

  • O que é que o astronauta fotografou exatamente a partir da ISS? O astronauta captou um evento luminoso transitório - provavelmente um sprite vermelho ou fenómeno relacionado - a brilhar acima do topo de uma trovoada poderosa no lado noturno da Terra.
  • Estes eventos de “relâmpago espacial” são perigosos para a ISS? Não. Estes clarões ocorrem muito abaixo da estação, na alta atmosfera. A ISS orbita bem acima deles e não está em risco por causa das descargas em si.
  • É possível ver sprites e elves do solo a olho nu? Sim, mas raramente. É preciso um céu muito escuro, uma tempestade intensa à distância e alguma sorte. As câmaras são muito melhores a captá-los do que o olho humano.
  • Porque é que os cientistas estão tão interessados nestes clarões breves? Porque mostram como as trovoadas transferem energia e alteram a química da alta atmosfera, o que afeta ondas de rádio, satélites e até modelos climáticos de longo prazo.
  • Os astronautas vão continuar a tentar fotografar estes eventos? Sem dúvida. Experiências dedicadas, sensores melhores e tripulações treinadas significam que, nos próximos anos, veremos provavelmente imagens mais detalhadas e mais frequentes de relâmpagos em grande altitude.

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