À esquerda, alguém arrasta os pés, com os olhos colados ao telemóvel. À direita, uma mulher ziguezagueia entre os transeuntes como se a sua carreira dependesse daqueles dez metros de passeio. O contraste é brutal. Quem anda depressa tem aquele olhar ligeiramente tenso, o tronco um pouco inclinado para a frente e, na cabeça, uma frase silenciosa: “Não tenho tempo para isto.”
E, muitas vezes, por detrás desse passo apressado, há uma convicção muito precisa: andar depressa é estar acima da média. Mais eficaz. Mais brilhante. Mais sério do que os outros. Os estudos científicos, por sua vez, contam uma história mais matizada. Entre a velocidade de marcha, o ego e a sensação de inteligência, a ligação é menos simples do que parece.
A verdade é menos lisonjeira do que se pensa.
Porque é que quem anda depressa sente que está a “ganhar” na vida
Em quase todas as grandes cidades, dá para os identificar em segundos. Quem anda depressa corta multidões, com os auscultadores postos, o maxilar cerrado, os olhos fixos num destino invisível. O ritmo diz: “Eu importo. O meu tempo importa.” Não estão apenas a andar; estão a emitir uma mensagem silenciosa de estatuto.
Se lhes perguntarmos, muitos admitem-no baixinho: andar mais depressa fá-los sentir mais afiados, mais por dentro das coisas, “ligados”. Não necessariamente com uma inteligência de génio, mas pelo menos mais inteligentes do que as pessoas que vão a arrastar-se. A velocidade do corpo alimenta uma narrativa privada: sou eficiente, sou ambicioso, vou a caminho de algum sítio. Essa história é poderosa, mesmo quando a realidade não corresponde totalmente.
Em 2019, uma equipa de investigadores da Universidade de Leicester analisou dados de quase meio milhão de adultos no UK Biobank. Encontraram um padrão claro: quem caminhava a passo vivo tendia a ter melhor saúde geral e um menor risco de morrer cedo. Um estudo separado associou a caminhada habitual mais rápida a pontuações cognitivas ligeiramente mais altas em alguns grupos etários, mas o efeito foi modesto, nada de extraordinário.
O resultado mais marcante foi psicológico. As pessoas que andavam depressa tinham muito mais probabilidade de classificar a própria saúde e capacidades como acima da média. É nesse intervalo entre medidas objetivas e auto-perceção que a história se torna interessante. O passo rápido parece aumentar a confiança, não necessariamente o QI.
Os psicólogos falam de “viés auto-favorável” - a nossa tendência para interpretar os nossos hábitos da forma mais lisonjeira possível. Se estás sempre a correr, o teu cérebro traduz de bom grado essa pressa numa identidade agradável: “Sou um alto desempenho.” Com o tempo, o estilo de marcha e a história que contas a ti próprio misturam-se. Não andas apenas depressa; passas a ser “o tipo de pessoa que resolve”. Mesmo que, na prática, estejas apenas atrasado e stressado.
Como a velocidade cria uma ilusão de inteligência
Um pequeno truque de que o cérebro gosta é confundir velocidade com qualidade. Quando os pensamentos surgem depressa, parecem inteligentes. Quando os pés se mexem depressa, parecem determinados. Em experiências sobre “fluência de processamento”, as pessoas avaliam ideias como mais inteligentes quando são apresentadas mais rapidamente e com confiança, mesmo que o conteúdo seja medíocre. A mesma ilusão transborda para a rua.
Imagina um corredor de escritório movimentado às 8:57. Entram dois colegas. Um vai a passear, café na mão, a um ritmo descontraído. O outro atravessa o corredor em passo de ataque, portátil já aberto debaixo do braço. Quem é que a maioria das pessoas rotula, em silêncio, como mais competente? Não necessariamente por causa dos resultados, mas porque o ritmo parece prova de urgência e valor.
A nível social, quem anda depressa recebe muitas vezes recompensas subtis. É visto como “determinado”, “em cima do assunto”, “dinâmico”. Esse feedback externo reforça a convicção interna: “Eu sou diferente.” Ao longo dos anos, este ciclo de reforço pode inflacionar uma pequena vantagem de organização até virar uma crença plena de inteligência superior - mesmo quando tarefas que exigem foco profundo ou criatividade não seguem, de todo, o mesmo padrão.
Há também uma camada cultural. Em muitas cidades ocidentais, o movimento lento é discretamente moralizado como preguiça ou falta de ambição. Andar depressa torna-se uma demonstração de valor. Mostras que mereces o teu lugar ao nunca parecer que tens tempo a perder. Nesse contexto, sentir-se mais inteligente não tem apenas a ver com a rapidez com que o cérebro trabalha, mas com a forma convincente como o corpo exibe ocupação.
Usar o teu ritmo de marcha sem deixares que ele te use
Há um lado prático nisto tudo: o ritmo é uma ferramenta. Um método simples é tratares a velocidade da caminhada como um botão de volume, e não como um interruptor ligado/desligado. Vais entrar numa reunião importante? Experimenta uma caminhada curta e rápida à volta do quarteirão antes. Não uma marcha de stress; apenas três a cinco minutos a um ritmo claramente mais rápido do que o habitual.
A frequência cardíaca sobe, o fluxo sanguíneo para o cérebro aumenta, e muitas pessoas dizem sentir-se mais lúcidas logo a seguir. Estás, basicamente, a usar o “efeito do andar depressa” de propósito, em vez de deixares que ele te conduza. Depois, ao saíres do edifício ou terminares uma chamada, abranda intencionalmente durante um minuto. Deixa o teu sistema nervoso alinhar com a realidade. Essa pequena redução pode impedir o cérebro de confundir urgência permanente com importância permanente.
A armadilha em que muitos caem é transformar cada passeio numa pista. Fazem slalom, ultrapassam, suspiram alto quando alguém lhes corta o caminho. Nalguns dias, é quase cómico. Noutros, é receita para fricção constante. Um ajuste empático é escolher “zonas de ritmo”: permitir-te andar depressa em avenidas principais ou quando realmente tens horário, e baixar conscientemente o ritmo em parques, ruas residenciais ou quando caminhas com outra pessoa.
Num plano mais emocional, todos já tivemos aquele momento em que percebemos que estamos praticamente a sprintar… e nem sequer estamos atrasados. Esse é, regra geral, o sinal de que a velocidade deixou de te servir e passou a controlar-te. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem perder um pouco de calma mental. Uma pergunta interior, simples, ajuda: “Estou a andar depressa porque preciso, ou porque estou a tentar sentir que estou a ganhar?”
“A velocidade pode fazer-te sentir mais inteligente no momento, mas a clareza muitas vezes chega a um ritmo mais lento.”
Para impedir que o teu ritmo se transforme numa armadura de personalidade, alguns pontos de ancoragem ajudam:
- Faz uma caminhada lenta por dia como “reset”, nem que seja só à volta do quarteirão.
- Repara nas histórias na tua cabeça quando ultrapassas alguém. Estás a julgar ou apenas a mover-te?
- Uma vez por semana, anda propositadamente ao ritmo de outra pessoa - criança, parceiro/a, familiar mais velho.
- Quando precisares mesmo de confiança, escolhe uma caminhada rápida e direita, em vez de uma pressa em pânico.
- Se te sentires superior só por seres mais rápido, para e pergunta o que é que estás a tentar não sentir.
Repensar o que a velocidade realmente diz sobre ti
Da próxima vez que estiveres numa rua movimentada, faz uma pequena experiência. Observa os que correm e os que vagueiam. Pergunta-te, em silêncio: quem é que parece realmente estar a comandar o próprio tempo? A resposta pode surpreender-te. Alguns dos caminhantes mais lentos não estão perdidos; simplesmente não estão a jogar o mesmo jogo.
Quem anda depressa não está necessariamente errado. Há manhãs em que mexer-se rapidamente é mesmo sinal de disciplina e agudeza. Há noites em que é apenas ansiedade em movimento. A subtileza está em notar a diferença. Quando o ritmo dos teus passos coincide com o ritmo da tua vida, a velocidade sabe a alinhamento, não a pressão. Quando não coincide, o movimento mais inteligente raramente é andar ainda mais depressa.
As pessoas que andam mais depressa do que a média não são automaticamente mais inteligentes. Muitas vezes, vivem apenas dentro de uma história mais forte sobre si próprias: que mexer-se rápido significa ser superior. Essa história é confortável, lisonjeira e socialmente recompensada. Também é frágil. Partilha esta ideia com alguém que conheças e que faz power-walk por tudo, ou com aquele amigo que fica sempre para trás e se sente culpado por isso. O ritmo não é uma categoria moral. É apenas mais uma forma de revelarmos - e, por vezes, escondermos - quem achamos que somos.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Velocidade & ego | Andar depressa alimenta um sentimento de superioridade, sem garantir uma inteligência mais elevada | Ganhar distância crítica sobre a forma como te avalias a ti e aos outros |
| Efeito “sinto-me mais esperto” | O cérebro confunde muitas vezes rapidez de ação com qualidade de pensamento | Evitar sobrestimar as próprias capacidades só porque se vai depressa |
| Adaptar o ritmo | Alternar, de forma voluntária, fases de marcha rápida e lenta | Usar o ritmo da caminhada para ganhar clareza mental, em vez de stress |
FAQ
- Andar depressa torna-me realmente mais inteligente?
Não exatamente. Alguns estudos associam a caminhada a passo vivo a um desempenho cognitivo ligeiramente melhor, mas o efeito é pequeno. Andar depressa está mais claramente ligado a melhor saúde física do que à inteligência “bruta”.- Porque é que me sinto mais inteligente quando ando depressa?
Porque a velocidade cria uma sensação de eficiência e controlo. O cérebro interpreta essa urgência corporal como lucidez mental, mesmo que o teu pensamento não tenha mudado.- Quem anda devagar é menos ambicioso?
Não. Algumas pessoas muito ambiciosas andam devagar de propósito para proteger o foco ou a energia. A velocidade de marcha reflete humor, hábito e cultura mais do que ambição, por si só.- Mudar o meu ritmo de caminhada pode afetar o meu humor?
Sim. Um curto período a passo vivo pode aumentar energia e confiança, enquanto abrandar deliberadamente pode acalmar a ansiedade e ajudar-te a sentires-te mais “no chão”.- Existe uma velocidade ideal para caminhar?
Não há um ritmo “melhor” universal. As recomendações de saúde costumam elogiar um passo vivo, mas o ritmo ideal é o que se ajusta ao teu corpo, à tua idade, ao teu contexto e ao que queres dessa caminhada.
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