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Agricultor investigado e multado em 1 milhão de reais por cultivar fruta patenteada.

Homens verificam pêssegos numa plantação; um segura um bloco de notas, outro inspeciona a fruta na árvore.

Num vale espanhol tranquilo, um único pomar desencadeou uma feroz batalha judicial sobre quem é, afinal, o verdadeiro dono do que cresce na terra.

O que começou como uma inspeção de rotina na Catalunha transformou-se num caso-teste de alto risco sobre “pirataria” agrícola, patentes de plantas e o futuro do melhoramento de fruta na Europa.

Um agricultor, 5.000 árvores e uma nectarina protegida

As autoridades em Lleida, no nordeste de Espanha, abriram uma investigação depois de a Guarda Civil ter suspeitado de comércio irregular de frutos de caroço provenientes de parcelas na região do Segrià, uma das principais zonas frutícolas do país.

No terreno, os agentes encontraram cerca de 5.000 nectarineiras. O problema: não se tratava de uma variedade comum. Segundo os investigadores, eram “Nectadiva”, uma nectarina tardia de elevado valor, patenteada pela empresa francesa de melhoramento Agreo Selections Fruit.

O produtor terá, alegadamente, reproduzido e vendido as árvores sem licença, sem pagar as taxas contratuais e sem declarar a utilização de material protegido.

O caso pode custar ao agricultor até 288.000 € - quase 1 milhão de R$ - por cultivar ilegalmente uma variedade patenteada de nectarina.

A investigação começou em fevereiro, quando os inspetores detetaram indícios de fruta a ser vendida fora dos canais oficiais de distribuição. Amostras dos pomares suspeitos foram enviadas para um laboratório especializado para análise de ADN. Os marcadores genéticos coincidiram com a variedade Nectadiva registada pela Agreo, confirmando que as árvores eram clones da linha protegida.

A polícia afirma que o agricultor recorreu a técnicas de enxertia e inoculação para multiplicar o material. São métodos hortícolas comuns, mas, no âmbito da legislação de proteção de variedades vegetais, utilizá-los sem consentimento em árvores patenteadas ultrapassa a fronteira entre a prática habitual e a infração.

O agricultor já prestou declarações e foi libertado enquanto o processo segue o seu curso. O Ministério Público e especialistas em propriedade intelectual trabalham agora para estimar os prejuízos para a empresa francesa e para confirmar o valor final da coima e eventuais indemnizações civis.

Como funcionam as patentes de plantas no terreno

Por trás deste conflito local está um poderoso sistema de propriedade intelectual em que a maioria dos consumidores de supermercado nunca pensa. Criar uma nova variedade de fruta pode demorar mais de uma década de cruzamentos, seleção e ensaios de campo.

As empresas de melhoramento investem muito em:

  • Investigação científica e seleção genética
  • Pomares experimentais e testes de campo
  • Estudos de resistência a doenças e adaptação climática
  • Marketing e redes de licenciamento com produtores

Em troca, os obtentores recebem direitos exclusivos sobre o uso comercial da variedade, tipicamente por 25 a 30 anos na Europa, ao abrigo de um enquadramento semelhante ao das patentes industriais.

Durante o período de proteção, qualquer multiplicação, venda ou plantação comercial de uma variedade registada exige uma licença e o pagamento de royalties ao titular dos direitos.

No caso da nectarina Nectadiva, fontes do setor estimam o esforço de melhoramento em bem mais de 10 milhões de R$, somando salários de investigação, ensaios em diferentes climas e custos de registo em vários países.

As ferramentas legais contra a infração variam, mas podem incluir:

Medida O que pode acontecer
Coimas económicas Pagamento dos royalties em dívida mais penalizações e juros
Destruição das árvores Ordem de arrancar pomares ilegais para impedir utilização futura
Ações cíveis Indemnização por oportunidades comerciais perdidas
Processo criminal Acusações relacionadas com fraude ou infrações de propriedade intelectual

Para pequenos e médios produtores, estas sanções podem ameaçar a sobrevivência de uma exploração, sobretudo quando estão em causa milhares de árvores e a fruta se posiciona no segmento premium do mercado.

Porque é que esta nectarina vale uma guerra judicial

A Nectadiva não é apenas mais uma nectarina na prateleira. Classificada como variedade “tardia”, amadurece depois de a maioria das cultivares concorrentes já ter desaparecido do mercado. Esse timing preenche uma lacuna apetecível no calendário europeu.

Na prática, isto significa que os retalhistas conseguem oferecer nectarinas frescas durante mais tempo, a preços que se mantêm mais elevados porque a oferta é limitada. Para exportadores, a janela alargada reduz a concorrência e ajuda a garantir contratos com supermercados.

O fruto em si traz mais vantagens comerciais. Tem polpa amarelo-vivo, suculenta e firme, com uma textura crocante que resiste bem ao transporte e ao armazenamento. A pele apresenta uma cor vermelha intensa que atrai os compradores. Os obtentores afirmam ainda uma melhor resistência a doenças comuns que afetam as árvores de fruto de caroço na Europa.

Uma variedade patenteada como esta combina sabor, vida útil e resistência a doenças - um trio poderoso para produtores que procuram lucros consistentes.

Os supermercados valorizam estas características porque reduzem desperdícios e reclamações. Se uma nectarina se mantém firme na prateleira durante vários dias sem perder textura, os funcionários deitam fora menos fruta e as margens melhoram.

Para os obtentores, estas vantagens justificam tanto o longo processo de investigação como a defesa rigorosa dos seus direitos. Cada pomar não licenciado enfraquece o retorno do investimento e desincentiva nova inovação.

Pressão crescente da “pirataria agrícola”

O caso espanhol lança luz sobre uma tendência mais ampla que já preocupa empresas frutícolas do Chile à Itália: a propagação não licenciada de variedades patenteadas, por vezes chamada pirataria agrícola.

Normalmente assume diferentes formas:

  • Comprar algumas árvores licenciadas e depois enxertá-las secretamente para multiplicar o material
  • Importar estacas/garfos sem pagar taxas de propriedade intelectual
  • Vender fruta como variedades “anónimas” para ocultar a origem protegida
  • Misturar árvores legais e ilegais no mesmo pomar para confundir os inspetores

À medida que as variedades legais se tornam mais especializadas e os preços sobem, cresce a tentação de excluir os obtentores do negócio. Alguns produtores argumentam que as taxas de licença comprimem margens já reduzidas. Outros veem simplesmente uma oportunidade de plantar uma fruta rentável sem burocracia.

As empresas de melhoramento respondem apertando os controlos, contratando inspetores de campo e defendendo sanções mais duras a nível europeu. Os testes de ADN tornaram-se uma arma central: laboratórios conseguem comparar amostras de folhas ou frutos com perfis de referência guardados em bases de dados internacionais.

Nectarina versus pêssego: mais do que uma questão de pele

Este litígio também reaviva uma velha confusão na banca do mercado: o que distingue realmente uma nectarina de um pêssego?

A principal diferença está na pele. Os pêssegos têm uma superfície aveludada e com penugem, enquanto as nectarinas apresentam uma casca lisa e brilhante, sem pelo visível. Em muitas variedades, as nectarinas também ficam de um vermelho mais profundo, o que os consumidores associam frequentemente à doçura - ainda que o sabor dependa do açúcar e da acidez, não apenas da cor.

Na cozinha, as nectarinas adaptam-se bem a receitas doces e salgadas. O seu sabor concentrado funciona em:

  • Compotas e doces, onde a polpa firme mantém a forma
  • Sucos/sumos e batidos, misturados com citrinos ou bagas
  • Saladas com queijos macios, frutos secos e folhas verdes
  • Metades grelhadas servidas com iogurte ou gelado

Para os produtores, escolher entre pêssegos e nectarinas depende do clima, da pressão de doenças e da procura do mercado - mas para os obtentores, ambos os grupos estão hoje inseridos num enquadramento legal de proteção rigorosa.

O que isto significa para agricultores, obtentores e consumidores

A investigação espanhola destaca uma tensão crescente na agricultura moderna: como recompensar a inovação sem excluir os agricultores mais pequenos do acesso a variedades rentáveis.

De um lado, os obtentores defendem que, sem direitos fortes de propriedade intelectual, os investidores recuam e a investigação abranda. Do outro, os produtores alertam que licenças dispendiosas podem prendê-los numa dependência de alguns grupos multinacionais, enquanto variedades locais e tradicionais perdem espaço.

Para os consumidores, o impacto surge muitas vezes de forma subtil. Frutas protegidas chegam às prateleiras com aspeto uniforme, sabor previsível e épocas mais longas, mas podem custar mais e afastar produtos locais menos padronizados. As etiquetas raramente indicam se uma nectarina ou uma maçã vem de uma linha patenteada.

Algumas cooperativas agrícolas procuram equilibrar a equação. Negociam licenças coletivas para que muitas pequenas explorações partilhem o custo e tenham acesso a novas variedades em condições mais justas. Os serviços de extensão rural também incentivam os agricultores a dedicar parte das suas terras a cultivares regionais que permanecem livres de restrições de patente.

Para quem trabalha a terra, o caso espanhol é um lembrete contundente: antes de plantar aquela nova fruta promissora, verificar o estatuto legal da variedade é tão importante como verificar o solo. Uma única fila de árvores sem licença pode transformar-se numa coima de seis dígitos, num pomar arrancado e em anos de dores de cabeça legais.

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